Para frei Betto, anos de Bolsonaro serão de repressão e assassinatos

03/11/2018 | 01:30
"TODA A OPOSIÇÃO deve se manter unida em defesa da democracia", afirma frei Betto Edimar Soares 1º/5/2014

Demitri Túlio


Preso duas vezes durante a ditadura militar (1964-1985), frei Betto, 74 anos, prega que não sente "medo nenhum" do cenário de "repressão" que se prospecta para os quatro anos de Jair Bolsonaro (PSL) à frente da Presidência do Brasil. O dominicano afirma que tem "fé" numa união da oposição para atravessar um tempo de "mais perda de direitos" políticos e civis. O religioso que, na última semana, chamou Ciro Gomes (PDT) de desinformado em resposta a um ataque do ex-presidenciável que o taxou de "bajulador" de Lula, conversou com O POVO por e-mail.

 

O POVO - Como o senhor projeta a oposição no governo Bolsonaro?

Frei Beto - Toda a oposição deve se manter unida em defesa da democracia. E é importante fortalecer os movimentos sociais e os sindicatos, promover cursos de educação popular pelo método Paulo Freire, despertar em nosso povo a consciência crítica.

 

OP - E qual a perspectiva do Brasil para os próximos quatro anos?

Frei Betto - Repressão, avanço do agronegócio sobre a Amazônia e das mineradoras sobre as reservas indígenas, forças policiais assassinando impunemente, censura, rompimento de relações diplomáticas com vários países, privatizações irresponsáveis etc.

 

OP - O senhor, que atravessou uma ditadura com os dominicanos e foi preso duas vezes, tem quais medos hoje?

Frei Betto - Medo nenhum. Tenho fé. Lamento é pelo povo brasileiro, que sofrerá muito com mais perda de direitos.

 

OP - Atitudes como a dos estudantes da UnB, no Distrito Federal, representam o que para esse momento político?

Frei Betto - Estou orgulhoso com a atitude deles, de repúdio à barbárie e defesa dos direitos humanos. É preciso disseminar este exemplo por todo o Brasil. A função da educação, como ressalto em meu livro recém-lançado Por uma Educação Crítica e participativa (Anfiteatro/Rocco), é formar cidadãos com consciência crítica. Povo que não conhece o seu passado corre o risco de, no presente, repetir os mesmos erros no futuro. Há quem apoie a ditadura militar por ignorar como ela foi cruel, torturou, assassinou, exilou, baniu brasileiros da pátria, nadou de braçada na corrupção e manteve toda a mídia sob rigorosa censura, além de entregar o Brasil em frangalhos à democracia. (Na última segunda-feira, estudantes da Universidade de Brasília (UnB) expulsaram 13 manifestantes simpáticos ao presidente eleito Jair Bolsonaro. Antes do 2º turno das eleições, parte do campus havia sido pichado com frases e cartazes de cunho fascista e ameaçador).

 

OP - Como cidadão, o que fazer diante de casos de intolerância extremada?

Frei Betto - Evitá-los e, se chegar às vias de fato, denunciá-los à Justiça e à mídia estrangeira.

 

OP - Qual o caminho para que o País volte a se unir depois de tanto discurso de ódio?

Frei Betto - Enquanto houver essa gritante desigualdade social o Brasil não vai se unir. Mas as forças de oposição sim, devem se unir o quanto antes em torno de um novo projeto de País.

 

OP - Ciro Gomes criticou o senhor, Gleisi Hoffmann e Leonado Boff. Dizendo que ao redor de Lula não existem pessoas que façam a crítica. Qual rumo ele deveria tomar na atual conjuntura política?

Frei Betto - Não quero bater boca com Ciro.

 

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