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No domingo passado, neste mesmo espaço Vasco Arruda fez tocante reflexão sobre a morte recente de pessoas queridas, especialmente a de seu pai. Como tenho andado à flor da pele, o artigo me desmanchou em lágrimas. Como ele, estou às voltas com o pai morto e, como ele, escavo da alma os escombros inevitáveis que sucedem a morte do pai.


A vida me permitiu vivenciar o primeiro e profundo luto clânico somente depois do meio século de vida, dando-me a benfazeja chance de reconciliação com aquele que me deu a vida e também, por vezes, a morte em vida. Se Beauvoir está certa quando diz que não “nascemos”, mas nos “tornamos mulheres”, eu e Samia Helena, as duas filhas do seu Manoel, vulgo Chico(!), tivemos uma contrassenha: fomos por ele talhadas para a autossuficiência pessoal, para o bem e para o mal. No que parecia ser um combate interno com seu próprio machismo nordestinamente arcaico, nos dizia que não deveríamos aceitar que homens nos ditassem regras, ainda bem. E assim foi feito, não sem vivermos nossos próprios combates internos com a ancestralidade do simbólico feminino.


O efeito da perda do pai sobre a filha não é seguramente o mesmo que para o filho, pois o modo fantasmático de sua inscrição na psiquê de um e outro gênero também não é o mesmo. Depois de um período inicial de identificação “cega”, me desvencilhei de sua figura e vi surgir tardiamente a mãe outrora eclipsada pelo falo imaginário do pai pre-potente. A descoberta da mãe me pôs diante de uma mulher-idade nova, uma força inédita, um pragmatismo orientado ao futuro e à vida, mas sobretudo à disposição da compreensão e do perdão daquele que agora me aparecia como algoz do passado. Ao fim e ao cabo, aceitei meu destino de melancolia, boemia e pranto como herança irrecusável daquele homem que me disse em longínquos tempos: “vai, menina, vai ser mulher forte nessa vida”. E assim o pai vive e viverá mais ainda cada vez que uma música me levar às lágrimas (quase sempre) e em cada conquista de reconhecimento sincero do velho mundo macho.


Em 2015, por ocasião de sua internação no HGF, ocupei esse espaço para um agradecimento público ao pessoal do SUS que lhe cuidou.

Agora, não posso deixar de mencioná-los novamente. Nos últimos dois anos, ele foi paciente renal, dialisando três vezes na semana, no Instituto de Doenças Renais. Uma equipe que, desde o motorista do transporte, maqueiros, médicos, atendentes, psicólogos, assistentes sociais, e sobretudo a enfermeira Adriana, por quem ele se tomou de amores, nos deu uma demonstração perfeita do que é cuidado humanizado. A comoção os tomou a todos, equipe e pacientes, no dia em que nos despedimos agradecendo pelo carinho dispensado a nosso pai. A presteza da equipe do Samu, a competência técnica e humanizada da equipe do HGF, para onde ele retornou para falecer, é forçoso também um reconhecimento digno de nota pública, em tempos de ataque e desmonte desse estupendo sistema universal de saúde que construímos. Se toda vida humana é política, a doença e a morte o são ainda mais. Esperem para ver.


Meu pai foi um homem simples, um trabalhador comum deste país. Informava-se pelo radinho de pilha. Ficou carola nos últimos tempos. E tinha um gosto musical superlativo. Neste dia que é dele, eu - que não sei rezar - ofereço em sua memória a minha lavra, a minha palavra. O melhor modo de dizer que o destino se cumpriu.  \t\t\t\t\t

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Opiniões.Dom

Sandra Helena de Souza. Em nome do pai

12/08/2017 | 17:00

 

No domingo passado, neste mesmo espaço Vasco Arruda fez tocante reflexão sobre a morte recente de pessoas queridas, especialmente a de seu pai. Como tenho andado à flor da pele, o artigo me desmanchou em lágrimas. Como ele, estou às voltas com o pai morto e, como ele, escavo da alma os escombros inevitáveis que sucedem a morte do pai.


A vida me permitiu vivenciar o primeiro e profundo luto clânico somente depois do meio século de vida, dando-me a benfazeja chance de reconciliação com aquele que me deu a vida e também, por vezes, a morte em vida. Se Beauvoir está certa quando diz que não “nascemos”, mas nos “tornamos mulheres”, eu e Samia Helena, as duas filhas do seu Manoel, vulgo Chico(!), tivemos uma contrassenha: fomos por ele talhadas para a autossuficiência pessoal, para o bem e para o mal. No que parecia ser um combate interno com seu próprio machismo nordestinamente arcaico, nos dizia que não deveríamos aceitar que homens nos ditassem regras, ainda bem. E assim foi feito, não sem vivermos nossos próprios combates internos com a ancestralidade do simbólico feminino.


O efeito da perda do pai sobre a filha não é seguramente o mesmo que para o filho, pois o modo fantasmático de sua inscrição na psiquê de um e outro gênero também não é o mesmo. Depois de um período inicial de identificação “cega”, me desvencilhei de sua figura e vi surgir tardiamente a mãe outrora eclipsada pelo falo imaginário do pai pre-potente. A descoberta da mãe me pôs diante de uma mulher-idade nova, uma força inédita, um pragmatismo orientado ao futuro e à vida, mas sobretudo à disposição da compreensão e do perdão daquele que agora me aparecia como algoz do passado. Ao fim e ao cabo, aceitei meu destino de melancolia, boemia e pranto como herança irrecusável daquele homem que me disse em longínquos tempos: “vai, menina, vai ser mulher forte nessa vida”. E assim o pai vive e viverá mais ainda cada vez que uma música me levar às lágrimas (quase sempre) e em cada conquista de reconhecimento sincero do velho mundo macho.


Em 2015, por ocasião de sua internação no HGF, ocupei esse espaço para um agradecimento público ao pessoal do SUS que lhe cuidou.

Agora, não posso deixar de mencioná-los novamente. Nos últimos dois anos, ele foi paciente renal, dialisando três vezes na semana, no Instituto de Doenças Renais. Uma equipe que, desde o motorista do transporte, maqueiros, médicos, atendentes, psicólogos, assistentes sociais, e sobretudo a enfermeira Adriana, por quem ele se tomou de amores, nos deu uma demonstração perfeita do que é cuidado humanizado. A comoção os tomou a todos, equipe e pacientes, no dia em que nos despedimos agradecendo pelo carinho dispensado a nosso pai. A presteza da equipe do Samu, a competência técnica e humanizada da equipe do HGF, para onde ele retornou para falecer, é forçoso também um reconhecimento digno de nota pública, em tempos de ataque e desmonte desse estupendo sistema universal de saúde que construímos. Se toda vida humana é política, a doença e a morte o são ainda mais. Esperem para ver.


Meu pai foi um homem simples, um trabalhador comum deste país. Informava-se pelo radinho de pilha. Ficou carola nos últimos tempos. E tinha um gosto musical superlativo. Neste dia que é dele, eu - que não sei rezar - ofereço em sua memória a minha lavra, a minha palavra. O melhor modo de dizer que o destino se cumpriu. 

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